segunda-feira, dezembro 20

Ecce Homo

3
Nesses dias,
Nesses dias em que inventei uns quatro amores,
tive de sofrer com cada adeus.

E com adeus chorado,
com adeus desapegado,
fiquei despedaçado.

Só Dioniso sabe a dor que é enfrentar um titã.
Amores criados dentro de mim,
que portanto devem ser destruídos dentro de mim.

Eu não sou suficiente.
Mas como disse o filósofo:
"Aquilo que não me destrói, fortalece-me".

Eis que sou um homem digno da destruição.
Um homem feito de pedras, escombros, destroços.
Um homem multifacetado.

Um homem borboleta.
Um homem beija-flor.
O mais raro dos homens.

quinta-feira, dezembro 16

Besteira

1
Telhado,
calhas,
água.

Pedras,
cacos,
vidros.

Estrada,
bagagem,
ventania.

Areia,
terra,
temporal.

Viagem,
despedida,
adeus.

domingo, novembro 7

Densidade

0
Isto não saber de nada.
De nada, por nada.
Se soube,
estava errado.
A morte mesmo não sabe de nada,
não sabe sequer a hora de chegar.
Ela só vem.

Não sei se vale a pena perguntar,
encher de interrogações as páginas de um livro.
Não sei se vale a pena calar
e escrever sobre o silêncio
dizendo o que ele é.
Ele só vem.

O niilismo tem me atormentado,
minha visão tem ficado escassa,
as coisas tem ganhado mais intensidade
e o céu,
o céu que amo e sempre amei,
o céu tem ameaçado me esmagar
a começar pela cabeça.

Em tudo,
se sei
é que não sei.
A realidade me apavora.
Eu agiganto-me,
e o casulo é cada vez pequeno.
A realidade é de diamante
tal qual o casulo.

Mas ainda assim,
ainda contudo,
ainda não obstante,
ainda apesar de,
ainda assim,
eu vivo,
pressuposto de todo o nada.

Obrigado por existir
por nada.