domingo, fevereiro 7

Mate-os, Mateus!

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Ao entardecer levou a bagadem da mãe ao aeroporto, tinha acabado de recepcioná-la por mais de duas semanas. Abriu os dentes e fez um sorriso de tristeza, o avião subiu e lá estaria a mãe dele, estaria no céu.

Quando jovem, Mateus temia a desestruturação da família. Não conseguia imaginar a casa dele sem o leite quente da avó, a pertubação do irmão mais velho e o carinho da mãe em contraste das reclamações do pai. Era computador, livros, filmes, tudo de graça e com o carinho necessario ao menino portador do vírus HIV.

Aos dez anos de idade foi molestado pela a amiga da família, a dona Matildes, uma senhora de seus trinte e nove anos. Abusou do menino, ao longo de exatas treze vezes de relação sexual intensa durante quatro anos.Na última relação sexual, quando o menino atingia a puberdade e a família começou a repelir a presença de D. Matildes, ele contraiu a doença ao ritmo que sentia o prazer intenso expelido pelo seu corpo destinado às entranhas daquela velha depravada.

Desde cedo foi tratado sob tais condições: criança, sem expectativa de vida e traumatizado.

Se não fosse tantas adversidades, Mateus seria dono de empresa especializada em software. Ele percebeu da necessidade de sentir a vida sem paliativos, sem trabalhos capitalistas; estava decidido: Mateus iria se enclausurar em lugar próprio para quem sofre de Aids. O problema é que Mateus não sofria, logo depois de três dias seus pais o buscaram no Espaço de Doentes Herméticos.

Já com os seus vinte e cinco anos, Mateus voltou para a casa e ligou para sua esposa cuja existência ninguém imaginava. Discou o número e disse que tudo estava bem. Três batidas na porta, a chave enrrosca-se na fechadura e uma velha magra em estado espectral depara-se com Mateus estirado no chão. Borbulhavam salivas da boca, Matildes chegou próximo dele. Alguns segundos de vida e as últimas palavras, ela disse que te perdoaria, pronunciou em língua estranha o homem já envolvido de morte.

E nas últimas imagens de sua mente vinham lembranças das noites intermináveis junto da senhora que amava. Vinham as dores de outras doenças acumuladas e a motivação da companheira patológica: Mate-me, Mate-os, se mate! Nunca ouviu a voz do suicídio, mas naquele entardecer depois da felicidade em saber da possível reconciliação, ficou convicto de que mataria todos os seus demônios incluindo ele mesmo.

1 Response to Mate-os, Mateus!

9 de fevereiro de 2010 15:44

cara bacana
gostei..